Dessa Preta Forte

Engole o choro e não volte apanhada pra casa

Enfrenta! Afronta!

E não volte apanhada pra casa

Suporte as violências, mazelas, a negligência

Segure o choro e não volte apanhada pra casa

Assuma essa carapaça de Mulher Preta, dura e forte

Tão forte quanto a vida que você leva,

Tão dura quanto os afetos, ou a falta dele…

Não arregue, não se deixe fragilizar, isso não é pra vc

Engole o choro e não volte apanhada pra casa

 

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Aquela Estranha

Aqueles dias em que olhava no espelho e não me via

Fazia tanto tempo que usava aquela fantasia, que já nem sabia

Será que queria mesmo me encontrar? Nada me refletia

Era por meio daquele personagem que eu garantia o pão de cada dia

Sendo aquela estranha é que eu subsistia,

Num mundo em que meu corpo não cabia

Mas não sei qdo foi que eu, cansada de ser outra, rasguei a fantasia

Nasci de dentro de mim, talvez um pouco tardia, mas ainda valia

Revejo as imagens daquela estranha, com medo de que ela volte um dia

Vestida, de novo, daquele corpo que não me pertencia

Sufocando uma ancestralidade, que graças aos orixás, não sucumbia

Hoje me encontro ali, talvez não seja a mesma amanhã, mas pq seria?

Na verdade só espero ser mais eu,

Os Meus

As Minhas

 

 

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Tossir as dores, cuspir os temores

Em 2002, no dia 02 de fevereiro, fui diagnosticada com tuberculose, foi um grande susto! Tudo aconteceu muito rápido e um dia antes eu tive hemoptises que minha mãe julgava não ser nada de muito grave, então acordei cedo e fui trabalhar.

Era analista de crédito de uma rede de magazine e peguei um copo descartável para cuspir o sangue que insistia em sair a cada tosse. Quando a minha gestora, que suspeitava ela mesma estar tuberculose (mas felizmente não teve a doença), viu o copo e eu contei que estava assim a mais de 24 horas ela pediu para que eu fosse correndo ao médico.

Chegando lá, a cidade estava em polvorosa por conta dos festejos em homenagem a rainha do mar, fui diagnosticada com tuberculose e naquele momento percebi a minha imortalidade e total desconhecimento sobre o assunto, lembrando-me apenas do poeta Castro Alves e do Noel Rosa que faleceram por conta da tuberculose.

O tratamento foi uma das fases mais funestas da minha vida, mas segui rigorosamente com a vontade imensa de sobreviver, sobreviver…E então, passados os longos seis meses me curei. Me curei?

Em 2008, seis anos após a tuberculose, voltei a ter as crises de hemoptise e chorei, não somente pelo medo da morte novamente me assombrando, mas pela possibilidade de ter que passar novamente por um doloroso, longo e difícil processo para sobreviver, pois eu lutaria para continuar viva sempre.

Neste mesmo ano me mudei para Florianópolis e segui com o tratamento e acompanhamento para meu caso, que já havia descartado o retorno da tuberculose e tratava-se de uma lesão no pulmão. E numa nova terra, com médicos e hospital que eu desconhecia transferi meus temores com as expectativas em convalescência. Como fazer uma broncoscopia se eu não tinha ninguém para me acompanhar até o hospital? O que fazer com as crises que se intensificavam e aumentavam sua frequência de ocorrências podendo me levar a óbito por hemorragia?

Durante o mês de junho de 2009 fiz a cirurgia para remoção da parte lesionada do pulmão direito, me recuperei até mais rápido do que imaginei, mesmo sendo uma cirurgia extremamente dolorosa, em muitos sentidos.

Hoje, mais do que as cicatrizes que me acompanham, sigo assombrada com a possibilidade de ser acometida por outras doenças bronco respiratórias que exijam processos de tratamento e cura tão extenuantes. Minha capacidade respiratória se alterou e acumulou asmas e rinites como um sistema de alerta.

Por em cheque a imortalidade que permeava o imaginário dos meus vinte e poucos anos me permitiu valorizar a vida e suas possibilidades com mais avidez, me fez acreditar ainda mais nas minhas convicções e pensar nos legados que pretendo deixar, me fez entender e enxergar as minhas fragilidades, agora não preciso mais engolir o choro, posso chorar.

Meu processo de cura não se findou nos tratamentos médicos, acredito que isso não ocorrerá nunca. Sigo me curando sempre, aos poucos, todos os dias de modo solitário e coletivamente. Por não precisar mais guardar em minhas vísceras esses nódulos de medo é que escarro essas palavras ensanguentadas de alívio.

 

 

 

 

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Silêncio Diplomado

A academia quer que lhe preste vassalagem, através da sua arrogante sabedoria que ironiza a minha capacidade intelectual, querendo limar a minha altivez e segurança. Brinca com minha autoestima e, muitas vezes, lhe deixo acreditar que tem o controle desse jogo de vaidades, do qual não participo inerte aos seus desmandos.

Contudo, sem esquecer as mazelas chanceladas pela intelectualidade, caminho descalça e em silêncio, por ora, nessa biblioteca da Casa Grande, mas jamais me subordinarei ao seu eurocentrismo colonialista travestido de discurso contra hegemônico que segue calando quem grita.

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Cidade Mãe

Minha relação com ela é intensa, visceral, passional. Nos amamos, mesmo distante, até porque foi estar longe que nos aproximou e me fez reconhecer a magia do seu cheiro, sua beleza colorida e o som emanado despretensiosamente como um verdadeiro encantamento.

Me recebe sempre com um sorriso negro, sempre sincero! Vejo em cada momento de nova descoberta sua alegria em me contar as novidades, inclusive as mazelas, pois não há segredos entre nós e, mesmo em silêncio, algo impossível para nós, compreendemos o que precisamos dizer uma a outra.

Esse amor que guarda ciúmes e boas lembranças nos diverte ao perceber na outra o egoísmo em não deixar que ninguém mais participe da nossa felicidade, mesmo sabendo isso impossível, já que nosso relacionamento não é fetichista como os demais. Temos o cuidado em reconhecer os lados bons e ruins e ainda assim saber amar e se surpreender sempre.

Você foi meu alimento desde os primeiros anos de vida e tenho sua essência na minha corrente sanguínea, seu cheiro nos meus pulmões, teus sabores nas minhas papilas e poderia viver muitos anos longe que ainda seria capaz de reproduzir e reconhecer cada característica sua, pois nasci em ti, cresci em ti, vivi em ti sem cerimônias e experimentando os extremos e sendo amparada pelos seus braços abertos sempre para receber os teus quando tropeçava.

 

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Negro cor de sangue

Não se faz necessário o resgate histórico do derramamento de sangue negro ao longo do tempo, pois é preferível fazer as constatações dos dias atuais para reflexão daqueles que ignoram, por comodidade, ingenuidade ou miopia, e para os que evidenciam tais fatos, mas são silenciados pelas mãos do mito da democracia racial, que nada mais é que uma alegoria que travesti a sociedade racista brasileira.

A população negra sofre genocídio cotidiano seja por armas de fogo, armas brancas, armas verbais, armas midiáticas, armas de extermínio de cultura em massa, armas de intolerância religiosa, entre tantas outras. O extermínio físico e psicológico reforçado e multiplicado a cada dia e, pior ainda, negligenciado por todos só ratifica a minimização da vida negra.

Nas redes sociais são incontáveis os casos de violência contra a negritude brasileira, mas não é um local exclusivo, basta verificar as estatísticas do país e acompanhar pelos canais de mídia o que ocorre atualmente em cada esquina. A rede social tornou-se um  catalisador do ódio racial onde muitos aproveitam a possibilidade de anonimato (ou não) para expor cruelmente seu racismo e intolerância, desmistificando a democracia racial e explicitando as entranhas putrefatas da sociedade racializada  em que vivemos.

E você acha que não enxergamos isso? Pensa que não entendemos as “piadas”? Acredita que não há racismo ou má intenção em termos pejorativamente racistas? Crê na falácia democracia racial?

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Reticências

Geralmente utilizado para indicar a suspensão ou interrupção de um pensamento, continuidade de um ato ou fato e também para representar, na escrita, hesitação em uma fala.

E com a aproximação de 2015 percebi as inúmeras reticências que me acometeram, e utilizo-a no sentido de continuidade, perspectiva, expectativas… Rumo aos pontos finais, exclamações, interrogações e tudo mais que for possível.

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