Tossir as dores, cuspir os temores

Em 2002, no dia 02 de fevereiro, fui diagnosticada com tuberculose, foi um grande susto! Tudo aconteceu muito rápido e um dia antes eu tive hemoptises que minha mãe julgava não ser nada de muito grave, então acordei cedo e fui trabalhar.

Era analista de crédito de uma rede de magazine e peguei um copo descartável para cuspir o sangue que insistia em sair a cada tosse. Quando a minha gestora, que suspeitava ela mesma estar tuberculose (mas felizmente não teve a doença), viu o copo e eu contei que estava assim a mais de 24 horas ela pediu para que eu fosse correndo ao médico.

Chegando lá, a cidade estava em polvorosa por conta dos festejos em homenagem a rainha do mar, fui diagnosticada com tuberculose e naquele momento percebi a minha imortalidade e total desconhecimento sobre o assunto, lembrando-me apenas do poeta Castro Alves e do Noel Rosa que faleceram por conta da tuberculose.

O tratamento foi uma das fases mais funestas da minha vida, mas segui rigorosamente com a vontade imensa de sobreviver, sobreviver…E então, passados os longos seis meses me curei. Me curei?

Em 2008, seis anos após a tuberculose, voltei a ter as crises de hemoptise e chorei, não somente pelo medo da morte novamente me assombrando, mas pela possibilidade de ter que passar novamente por um doloroso, longo e difícil processo para sobreviver, pois eu lutaria para continuar viva sempre.

Neste mesmo ano me mudei para Florianópolis e segui com o tratamento e acompanhamento para meu caso, que já havia descartado o retorno da tuberculose e tratava-se de uma lesão no pulmão. E numa nova terra, com médicos e hospital que eu desconhecia transferi meus temores com as expectativas em convalescência. Como fazer uma broncoscopia se eu não tinha ninguém para me acompanhar até o hospital? O que fazer com as crises que se intensificavam e aumentavam sua frequência de ocorrências podendo me levar a óbito por hemorragia?

Durante o mês de junho de 2009 fiz a cirurgia para remoção da parte lesionada do pulmão direito, me recuperei até mais rápido do que imaginei, mesmo sendo uma cirurgia extremamente dolorosa, em muitos sentidos.

Hoje, mais do que as cicatrizes que me acompanham, sigo assombrada com a possibilidade de ser acometida por outras doenças bronco respiratórias que exijam processos de tratamento e cura tão extenuantes. Minha capacidade respiratória se alterou e acumulou asmas e rinites como um sistema de alerta.

Por em cheque a imortalidade que permeava o imaginário dos meus vinte e poucos anos me permitiu valorizar a vida e suas possibilidades com mais avidez, me fez acreditar ainda mais nas minhas convicções e pensar nos legados que pretendo deixar, me fez entender e enxergar as minhas fragilidades, agora não preciso mais engolir o choro, posso chorar.

Meu processo de cura não se findou nos tratamentos médicos, acredito que isso não ocorrerá nunca. Sigo me curando sempre, aos poucos, todos os dias de modo solitário e coletivamente. Por não precisar mais guardar em minhas vísceras esses nódulos de medo é que escarro essas palavras ensanguentadas de alívio.

 

 

 

 

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Sobre Cauane Maia

Feminista negra Interseccional, soteropaulistana, percussionista das Cores de Aidê, integrante do Coletivo Negro 4P: Poder Para o Povo Preto, candomblecista, mestranda em antropologia social, bacharel em administração, graduanda em economia.
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